terça-feira, 3 de julho de 2012

Dói


Dói. Às vezes menos do que deveria. Outras, mais que eu poderia suportar.
Tempos difíceis! Os olhos se enchem daquilo que eu nem sabia mais que tinha: vergonha. Do que meus olhos fizeram as honras de esquecer publicamente. Do que a minha cara se esqueceu de sentir. Do que o meu sonho se consumiu assustadoramente.
 Voltar a permitir-se um encontro que não permite muito além do que as correntes permitem alcançar é um embate com o que não é possível de ser vencido, pois o vencedor está definido além das vontades de mudança. Como quando a imagem do troféu só é atingível àqueles de modo peculiares de domínio de um conflito que não cessa.
Tensão de conflitos morais são vetores do sofrimento. Confusão de palavras que  transparecem em mim.
Sabido do meu tempo. Sabido do meu medo. Sabido da farsa. Sabido do desejo. 

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Apresentação de mim (um trabalho de alma)


Prezados ouvintes,

Nesta manhã nos reunimos por uma razão, mas esta, por si só, não garantiria a nossa união porque esta transcende a presença material.
É com um sentimento impossível de ser nominado que encontro nesta forma de expressão a voz para o meu trabalho. Uma tentativa de descrever um percurso acadêmico e intimamente pessoal desse processo de formação, primeiramente, humana e em psicologia.
A trivialidade de início por um título reflete a necessidade de situar o (quase) devaneio que esta carta se materializa em Ensino Superior brasileiro e a mercantilização do conhecimento: a formação do psicólogo, o qual abre passagem para iniciarmos uma caminhada ao longo de algumas dezenas de páginas que amadureceram a alma da autora.
Me aventuro a definir margens e afirmar objetivamente que discutir a formação em psicologia num contexto neoliberal/capitalista como forma de construção do conhecimento no Ensino Superior brasileiro, a partir de uma revisão de literatura é uma tarefa transformadora. Aprendi a esculpir com ferramentas emprestadas da doutrina marxista, com fios de ouro que delinearam o corpo de uma pesquisa acadêmica e da minha vida.
(N)as minhas cadeiras é o primeiro momento que os olhos ainda maquiados se preparam para a nudez, esta é recebida com dor no momento que o primeiro passo em busca a realidade se aproxima. Esta começa a me dizer que a realidade brasileira e o capitalismo é um mundo que a estatística supera a singularidade do homem em nome da mais valia, que o capital germina em sua forma mais vil, que a alienação e fetichismo vigoram em nome da ideologia e que a inclusão marginal cresce assustadoramente em um sistema econômico e um objetivo: o capital que, por sua vez, tem o trabalho real a seu favor e como finalidade configurando o capitalismo.
Tantos anos sucederam a obra de Marx e, a partir de seus desdobramentos, adentro ao campo da educação entendendo que a atualidade de uma compreensão: a educação e a leitura marxista alimenta a crítica e a força, que hora se dissipa, hora me reveste com coragem. Em momentos rarefeitos meus ombros caem diante das políticas neoliberais e a educação brasileira: uma lógica mercadológica opressora e violenta, que assume 30% da população brasileira vinculada a Instituições de Ensino Superior e invisibiliza 5,5 milhões de humanos que não concluem sua formação. A mim, coube o pertencimento a seleta casta de trabalhadores, estudantes noturnos, de origem afro/indígena e pobre que tiveram condições de concluir um processo de formação profissional e poder olhar para este com criticidade que assola demasiadamente e fragiliza meus olhos desnudos.
Estes mesmos olhos ouviam que o Ensino Superior garante a melhoria da condição de vida em geral e, historicamente, meus olhos estavam certos. No século dezenove o desígnio com a formação especializada era o bem social, porém elitista e a serviço da manutenção da eterna luta de classes, pois somente determinada classe tem (tinha e terá) acesso ao conhecimento específico, assim a educação assume veementemente a sua face torta e rude: o controle; posteriormente social, cultural até a atualidade caracterizada pela economia.
A lógica desse sistema neoliberal economiza. Não economizei sofrimento quando o meu corpo cedia nem quando a minha alma cansada suplicava por água. Não economizei disposição e força para finalizar um trabalho forjadamente menos alienado. Também não economizei a Nany de si mesma, e por esta causa que aqui permaneço.
  


Texto construído para iniciar apresentação Dissertação apresentada em 27 de junho de 2012 como requisito de Conclusão do Curso de Psicologia apresentado a Fundação Hermínio Ometto – UNIARARAS.

sábado, 24 de setembro de 2011

Achados


Na minha adolescência escrevia cartas.
Cartas para todos: pais, irmão, amigos, amores e para mim num caderno de folhas amarelas e pautas mal traçadas. Um caderno com cheiro do tempo, que reencontrei depois de, no mínimo, oito anos.
Cartas não enviadas que ainda fazem sentido e que ainda tem o poder de me deixar com os olhos brilhando, com as bochechas coradas e pernas contorcidas.
Cartas escritas com verdade que eu só tinha quando aos quatorze anos.

Continuo escrevendo cartas.
Hoje escrevo para quem não lê, para quem me esquece nos pés da cama, em páginas fantasiosamente lindas que nem eu mesma consigo enxergar.

Cartas sem papel, cartas em ardor, cartas não mais de mim.

domingo, 14 de agosto de 2011

2 Junho 2008

Que as palavras faltem e que as horas passem
eu vou estar aqui!
pronta pra ser sua
amiga, companheira
e fêmea
que te deseja e te
quer ter perto,
bem perto...
Até não mais enxergar dois olhos
mas apenas um.
Ou, até não mais possa ver e sentir dois corpos
mas penas um.
E até não mais possa ser duas pessoas
mas apenas uma.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Escuta: uma tentativa - Adaptação Parte II


* * *


Em um espaço que o tempo é mensurado por semestre, o desempenho é medido por notas e o poder é estabelecido pelo pagamento de uma mensalidade no valor correspondente a dois salários mínimos¹ ... Esta entidade filantrópica assume seus contribuintes (no sentido mais cínico possível) como massa de modelar, mal moldada.

Ruth Rocha escreveu “Quando a escola é de vidro...” em seu livro Este admirável mundo louco de 2003 e cada vez que releio esse trecho reascende uma vontade de não parar de tentar: de quebrar os vidros que impedem o crescimento físico-crítico que segue a lógica de um sistema segregador em seu cerne. Que me violenta todos os dias com os modelos, métodos e técnicas coercitivamente sutis, eu me acostumo... Me acostumei a sempre esclarecer os objetivos, o método, descrever quem é o participante, ter um respaldo teórico de autores consagrados pela comunidade acadêmica e, somente a partir deles, poder posicionar o meu entendimento sobre mais um trabalho acadêmico – sim, o trabalho que todo aluno² tem o direito de não recusar.

É neste espaço de massacre da subjetividade que emergem figuras que resistem a burocratização e mediocridade que se alastram como uma praga! Acredito que a proposta desse trabalho é uma dessas figuras e tento fazer com que minha escrita também seja.

Contudo os vestígios que essas palavras podem assumir remetem ao meu viés e crença na educação, do qual não consigo me desfazer ou deixar de lado por alguns momentos.



1 Uma realidade totalmente alheia de milhões de pessoas no nosso país que sobrevivem com um quarto desse valor. Às vezes uma família de 5 ou 8 pessoas. Esse é mais um assunto que rende muitas conversas e opiniões: a educação particular no nosso país, em especial os cursos “superiores”.
2
Voltando a raiz desta palavra encontramos o latim mais vívido que nunca: os “não iluminados” cada vez mais em luz, e sem vontade ascender (o interruptor).

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Escuta: uma tentativa - Adaptação Parte I


Em tempos de retorno as aulas, faço aqui a primeira adaptação do único trabalho acadêmico que, até o momento, me orgulho de ter produzido.
São fragmentos que me afetam e me modificam a cada nova leitura e re-re-edição do total de 15 páginas desenhadas a mão.

Mas antes das primeiras palavras julgo importante fazer alguns esclarecimentos acerca do que falará as próximas postagens que virão por aqui...



E se eu me escutasse?

Certa vez, ao entrar neste centro universitário encontrei uma pessoa que cantarolava pelos corredores do terceiro andar, local que as aulas do curso de psicologia são realizadas, e este fato chamou minha atenção à medida que todos a olhavam e comentavam baixinho. Tempos depois, ou melhor, um semestre depois, encontrei essa mesma pessoa no elevador cantando a mesma música e ela me perguntou se eu fazia psicologia. Eu, assustada, respondi que sim e ela replicou que um dia eu ficaria tão louca quanto ela que estava no sétimo semestre do curso de psicologia. Naquele momento eu não soube o que responder e sorri desajeitadamente como se não houvesse outra atitude que expressasse mais e melhor a minha confusão e falta de entendimento sobre o que ela estava falando.
Faz exatamente três anos que este encontro aconteceu e a cada crise de dúvidas e sofrimentos – que esse curso me provoca – me lembro e reproduzo as suas palavras e olheiras que moldavam aquela expressão fadigada.
Agora você poderia me perguntar em que ponto essa pequena história faz ligação com um trabalho da disciplina de Métodos e Técnicas de Exploração e Diagnóstico em Psicologia: Psicanálise, que tem como proposta de atividade de conclusão da disciplina exercitar a escuta a partir de uma obra de arte qualquer modalidade. Pois bem, há dois meses eu responderia que estou tão maluca quanto a pessoa que cantarolava - já que agora é a minha vez de estar no sétimo semestre e eu também canto pelos corredores - hoje eu respondo que eu não consegui escutar o que aquela voz abatida tentava me dizer.

* * *

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Um corpo cai

Não! Não é hora para isso aparecer aqui.
Deveria ter sido quando ela ainda estava embaixo do queixo de frente com a imagem do pescoço raivoso que ainda estava viva na sua pele, convertida em medo e resultando num olhar arredio. Desconfiada que aquela verdade não existisse mais, e pior, que ela havia sido ludibriada com fervor.


A dor da espera pela finalização daqueles poucos minutos de lembranças se esticava e nada podia impedir que aquilo continuasse o seu caminho, somente o seu fim, por si só, conseguiria trazê-la de volta aquela cama com cheiro vulgar, abrir os olhos e ver seu corpo despido e sentir a culpa da falsidade... Mais uma vez.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

De madrugada 2

Quando o telefone tocava, ela pressentia que o tempo de desejo vivo estava de volta. Dessa vez com uma experiência que só o tempo pode construir em alguém e com o a vontade que só a imaturidade seria capaz de provocar.

E por lá se foi ela. Numa noite de céu iluminado por sua cobiça e por um par de olhos que, curiosamente, a acompanhava por entre as ruas mais vazias a cada luz que se apagava nas janelas.

As horas passavam rápido e nada poderia ser escondido ali: o ódio, o amor, a raiva, o pecado, o desejo, a luxúria e o mal se apresentavam e se despediam como em um uma dança de troca de pares. Uma troca de asas que ela permitiu acontecer e que, mesmo arrependida, sustentou a sua excitação.

Horas, suor e quilômetros depois ela estava em sua cama, ainda fria e com um pé gelado para fora do cobertor, que insistia em não obedecer as suas ordens de ser o outro.

A noite se foi e o dia a fez lembrar que sonhos não se repetem e que as noites são mais doloridas quando o sol insiste em mostrar as olheiras.

domingo, 31 de julho de 2011

De madrugada 1

Já era tempo tentar acabar com aquele sentimento de fraqueza que perdurara por anos.


Quando o dia resolve ir embora e senhora madrugada, imponente, assume seu reinado o tempo começa passar mais devagar e com a saudade mais presente que outrora.

Havia um tempo que todas as noites eram bonitas, mas o passar dos dias a deixou menos atraente; com temperos de castigo e culpa deixaram de ser vividas com o furor pueril.

Não sei se isso é tornar-se gelado com as sensações, só consigo ver o quanto as possibilidades de repetição são vetadas, paulatinamente, por mim. Sinto medo desse tempo podas: angústias por não ter pernas.

A falta de sono, o pensar dos olhos e dos ombros, me provoca e pensar que o passar dos anos não é generoso com os mortais e faz os desejos se perderem por entre o vai e vem da falta de sentido.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

O vão da noite


Aquela luz ascende e ilumina em mim aquilo que mantém o tempo parado durante as noites.
Ela também clareia o que a luz do dia tenta esconder de mim.
Traz de vota a força de uma vontade que apaga a cada início de semana.
Faz ir e vir, a cada novo piscar, uma decisão de abandono.
E cada vez que se apaga, apaga em mim a coragem de resistir.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

O ruim do dia

 O ódio me consome
Desse sorriso interminável
O ódio me consome
Dos olhos apaixonados
O ódio me consome
Do estar tão perto de mim
O ódio me consome
Das mentiras que meus ouvidos acreditam

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Exibicionismo

Ela entrou naquele lugar turvo pela fumaça de meia dúzia de cigarros acesos na mesa próxima a porta, a espera de seus donos retornarem com copos cheios.
Ela se sentou no último banco, no final do corredor que cuspia um emaranhado de calor e medo. Uma náusea tomou conta daquele corpo que era despido rapidamente pelos olhares das outras que se mantinham nos cantos mal iluminados pelos desejos dos outros.
A luta estava no auge. Os corpos suados e ventres trêmulos ocupavam as cabeças libertas do dia que o sol a pino fez brotar fogo do chão. Todos os olhos acompanhavam uma disputa espetacular que a palavra fazia seu reinado na mais plena ausência.

* * *
Cena de um sonho tardio, de uma vontade de asas...